segunda-feira, 30 de maio de 2011

O acaso I

Há muitos anos, 1937, 38, na Beira Interior, encosta da Serra do Caramulo. Faz frio, cheira a estrume, tudo é tosco, rude, sujo, escuro...

Isadora falha no seu proposito de casar com o herdeiro da aldeia. Julgava ela que aquelas noites de luxuria no meio da palha e das chibas, que a juras de amor do jovem abastado, seriam a sua alavanca para fora da pobreza imunda em que vivia,...até já tinha no ventre o herdeiro do herdeiro.

Infelizmente para Isadora em 1938 os herdeiros não casam com mulheres de 30 anos, claramente fora de prazo, sem terem onde cair mortas.
A lamúria de que teria o jovem herdeiro desflorado a moça não pegou...a moça já não era tão moça assim e além do mais, na aldeia, vários já se tinham aliviado entre as suas coxas... era uma moça fogosa.

A criança, rejeita-a, semi educa-a. Aliás prática normal, como constatei mais tarde quando visitei aquele lugar horrendo, perdido lá no interior norte. As crianças são educadas pelos velhos que estão em casa, porque os pais estão a trabalhar. Dantes no campo, agora nas fábricas, mas a tradição mantem-se. Acontece naturalmente, não é preciso pedir, combinar horários, pagar, nada, é curioso :)

E Orlando foi criado assim, por todos e por ninguém. Porque Isadora não estava nem aí para a maternidade.
E já ardilava outro plano para tirar o pé da merda.

Tinha arranjado trabalho no sanatório do Caramulo como servente.
Isadora, não sendo uma mulher bonita, chamava a atenção. Tinha aquele ar de quem gosta de sexo... E gostava, se havia coisa que Isadora gostava era de sexo.
E porque gostava procurava, e porque procurava encontrou. Encontrou Bernardo, doente em recuperação, que também gostava de sexo, e longe da mulher e filhas, cedeu às investidas da ardente Isadora.
Atravéz de Bernardo, das histórias que contava da sua cidade Lisboa, do seu bairro Campo d'Ourique,...Isadora começou a sonhar com uma vida ainda mais glamorosa do que aquela que o jovem herdeiro lhe proporcionaria, caso esse ardil tivesse resultado.
Em Lisboa é que era!!
Lá é que ela ia ser feliz :)

Bernardo recebia de Lisboa cartas da esposa. Estas cartas eram escritas por Laura, vizinha de Ester, esposa de Bernardo. Como muitos na altura, Ester não sabia ler nem escrever.
Laura tinha vivido na mesma casa que Ester e Bernardo habitavam em Lisboa. Tinha sido assim que se tinham conhecido.
A familia de Laura tinha crescido. Já eram 3 filhos, o espaço era curto naquela casa. André, seu marido, tinha um emprego melhor, podiam mudar-se para uma casa maior. Longe daquelas vilas operárias que existiam nas trazeiras daquela casa, com as quais André não gostava que Laura convive-se. André aspirava a mais, a melhor, e não gostava daquela mania, aquele íman que Laura tinha para pessoas estranhas, com histórias de vida macabras...onde é que ela descobria aquela gente...não eram de má índole, mas falavam mal, diziam asneiras, tinham habitos rudes e Laura acabava por adoptar todos aqueles trejeitos menos próprios.

André gostava de Laura. Era uma mulher bonita, vistosa, mais alta que a maioria das mulheres do seu tempo. Era educada. Sabia ler e escrever. Não havia muitas com essa qualidade.
E por saber ler e escrever, Laura era muito requesitada para ler e escrever cartas de toda aquela gente das vilas operárias de Campo d'Ourique, que um dia foram seus vizinhos, e ficaram amigos para a vida.

Assim, Laura lia e escrevia as cartas de Ester para Bernardo e deste enquanto este esteve hospitalizado no sanatório do Caramulo.
Sem nenhuma das duas desconfiar que à cabeceira de Bernardo estava Isadora, ardilando um plano...

Sem comentários:

Enviar um comentário